Fome, dor e silêncio

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Fome, dor e silêncio

O panorama político e social do país na década de trinta, e, em especial do nordeste seco e árido, favoreceu o êxodo nordestino às grandes cidades, principalmente às capitais da região Sudeste. A fome e a miséria espantaram uma imensa população para fora do campo, onde as possibilidades de sobrevivências eram mínimas devido à seca. Dentro deste contexto surge VidasSecas, uma obra que pode ser encarada como um retrato da vida dura do sertanejo.

A demanda pelas grandes cidades do sudeste brasileiro continua no decorrer do século vinte, levando para São Paulo e Rio de Janeiro uma explosão populacional desordenada, em que os retirantes deixam a vida difícil do nordeste, para viver, ou sobreviver, em condições precárias, geralmente em miséria absoluta nacidade grande. Um pouco desta vida desfavorável é apresentada por Clarice Lispector em A Hora da Estrela, cerca de quatro décadas após a publicação do romance de Graciliano Ramos.

Ao iniciarmos a leitura de Vidas Secas e A hora da estrela, identificamos que, a princípio, essas obras tratam de temas distintos. A grosso modo podemos definir que a primeira fala do problema da seca no áridosertão nordestino, enquanto a segunda conta a vida de uma retirante na grande metrópole. Porém, no decorrer destas leituras, encontramos algo mais que temas ligados à seca ou à migração para a cidade grande. Os romances em questão tratam em especial da questão humana e apontam similaridades entre os conflitos internos dos personagens Fabiano e Macabéa e que são expostos por um narrador onisciente.Antônio Candido vai nos dizer sobre a obra de Graciliano Ramos, em seu ensaio Bichos do Subterrâneo, que o romance Vidas Secas é o “único inteiramente voltado para o drama social e geográfico da sua região, que nele encontra a expressão mais alta.” (CANDIDO, p. 106).

Se o drama social é um tema novo para Graciliano, também há novidades em A hora da estrela, que foi produzidosimultaneamente com o romance Um sopro de vida, apresenta traços inéditos na obra de Clarice Lispector quanto ao modo narrativo, uma vez que “em ambos existem escritores-narradores homens que contam a história das personagens mulheres inventadas por eles”, nos explica Márcia Ligia Guidin. (GUIDIN, p. 33)

A personagem do romance A hora da estrela pode ser vista como a versão feminina dopersonagem idealizado por Graciliano Ramos, dadas as semelhanças entre estes dois seres humanos de vidas extremamente sofridas, sendo que boa parte deste sofrimento se dá devido a total falta de habilidade com as palavras em ambos. Macabéa é um retrato fiel do que teria sido Fabiano morando na cidade grande. Inclusive podemos conectar o final de Vidas Secas à chegada da retirante alagoana ao Rio deJaneiro:

“Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá...” (Vidas Secas, p. 128);

“...tinham vindo para o Rio, o inacreditável Rio de Janeiro...” (A hora da estrela, p. 30).

Antonio Candido, em seu livro de ensaios Ficção e Confissão, descreve os sentimentos de Fabiano daseguinte forma: “Fabiano existe, simplesmente. O seu mundo interior é amorfo e nebuloso”. Essas palavras poderiam perfeitamente estar descrevendo Macabéa. Já Rodrigo S. M., narrador de A hora da estrela, refere-se à retirante dizendo:

“Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando.” (A hora da estrela, p. 23).

As palavras são diferentes, mas tanto AntonioCandido quanto Clarice Lispector, na voz de Rodrigo S. M., referem-se à total ausência de autoconhecimento e entendimento sobre os próprios sentimentos. Estes são apenas alguns dos traços que os dois personagens têm em comum, além da vida faminta e miserável em que vivem.

Não há como comparar Fabiano e Macabéa sem levar em consideração a absoluta incapacidade de expressar seus...
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