La barca

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O PRELÚDIO NEBULOSO DE CRUZ E SOUSA Isadora Dutra1 Je ne crois qu’à ce que je ne vois pas. (Gustave Moreau) L’ insondable mystère reste insondable. (Paul Gauguin)

Um caminho na montanha, margeado pela vegetação verde, algumas árvores, muros e telhados, conduz o olhar do observador para a entrada de uma casa, em posição central na paisagem, para a qual convergem as linhas do quadro de Cézanne,La maison du pendu (1873). A composição dessa obra, segundo a descrição de Michel Hoog (1989, p. 49), é organizada em torno de um ponto central luminoso de onde partem os oblíquos que delimitam uma série de triângulos. Essa luminosidade no meio do quadro coincide com o lugar de uma casa que, conforme sugere o título da obra, está relacionada com a história de um enforcamento. Assim, o ponto de luzno quadro fica associado à idéia da morte. É justamente da temática da morte, e não de Cézanne, que se pretende aqui tratar e, mais especificamente, da morte no simbolismo de Cruz e Sousa, verificando alguns de seus aspectos na obra Faróis (1900)2 e, com mais profundidade, no poema “Flores da lua”. Também não é intenção deste estudo estabelecer comparações entre o impressionista francês e osimbolista brasileiro, evitando os riscos desse tipo de explanação comparativa entre pintura e literatura, como adverte Henri Peyre: Tout critique et tout professeur de bon sens ont vingt fois mis lecteurs et étudiants en garde contre la tentation de proposer des analogies entre littérature, peinture, musique. Les pièges s’ouvrent à chaque pas béants sur ce très glissant terrain. (PEYRE, 1974, p.178)Doutora em Teoria da Literatura. O presente ensaio faz referência à edição fac-similar de Cem anos da morte do autor —1861-1898. CRUZ E SOUSA. Faróis. São Paulo: Ateliê Editorial, 1998.
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No entanto, são inegáveis as relações entre as duas áreas da produção cultural de qualquer época e talvez ainda mais no período simbolista, conforme o próprio Peyre (1974, p.179) admite: “Rarement enFrance les rapports entre peintres, amateurs de musique et hommes de lettres ont été plus étroits qu’à l' époque que nous appelons symboliste (...)”. Essa proximidade entre os artistas, sobretudo na segunda metade do século XIX, provoca determinados efeitos na arte de cada um, sendo plenamente possível reconhecer idéias, temáticas e o surgimento de novas correntes estéticas, não correspondentes napintura e na literatura, mas que repercutem noções e influências semelhantes, filosóficas ou sociais. Entre o quadro de Cézanne e o poema de Cruz e Sousa a aproximação é meramente temática, mas não aleatória. O sentido de uma presença luminosa ligada à idéia de morte é comum entre eles. O tema da morte é tratado em ambos com sentidos parecidos, assumindo posição central nessas obras de forma que,tanto leitor quanto observador, são "encaminhados" pelos artistas para a temática. No quadro, o olhar é como que sugado, girando entre as linhas inclinadas, pelo ponto luminoso no centro da paisagem. No poema, a leitura vai, aos poucos, sendo conduzida por imagens que apenas sugerem ou indicam, sem ainda deixar clara a palavra que finalmente se confirma, em letra maiúscula, antes do último pontofinal: “Flôres amargas do pallôr da Morte”. Nas duas obras, o mesmo tema é tratado num "ritmo" semelhante, o qual parece criar um “andamento” em espiral que vai afunilando o olhar ou a leitura em direção ao ponto central, marcado pela presença da morte. Tal temática ocupou sobremaneira os artistas do século XIX, entre eles os poetas franceses como Baudelaire, por exemplo, que dedicou toda umaparte de Les fleurs du mal ao tema da morte, ou ainda como Mallarmé, com a sua série “des poèmes des tombeaux” e também teve quem dela tratasse no Brasil. A idéia de morte para os simbolistas está conectada a algumas das idéias filosóficas e estéticas que, mesmo surgidas, às vezes, em períodos anteriores, foram dominantes na sua época, como as influências de Wagner, Nietzsche, Schopenhauer,...
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