Processo d e formação da gíria b r a s i l e i r a

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Alfa, São Paulo, v. 35, p. 19-53,1991.

PROCESSO D E FORMAÇÃO DA GÍRIA B R A S I L E I R A *

Ana Rosa Gomes C A B E L L O * *

RESUMO: O objetivo deste artigo é observar como ocorrem os processos de formação da gíria brasileira, a fim de que se possa chegar à sua caracterização. Para tanto, a obra de ficção de JOÃO ANTONIO forneceu o corpus de estudo, uma vez que seus livros constituemvalioso material dessa natureza. UNTTERMOS: Gíria, argot, níveis fonético, morfossintâtico, léxico e semântico.

1. P R E L I M I N A R E S A gfria não é uma linguagem independente, mas, tal como o argot, forma parasitária da língua comum, da qual utiliza a fonética, a morfologia, a sintaxe e até boa parte do léxico. Assim, os processos de formação da gfria brasileira são os mesmos da LínguaPortuguesa — conforme comprova o item 2 deste artigo. Tal fato ocorre por igual com o argot de todas as línguas, resultando, no dizer de Otto Jespersen (7, p. 170), que esses diferentes argots apresentam características comuns, não só relativamente 'os campos semânticos, mas também à preferência por determinadas imagens e metáforas, decorrentes do uso prioritário de tal ou qual processo de criação.
1Com isso, importa observar se, na formação da gíria brasileira, têm validade as tendências de criação do argot, segundo Guiraud (6, p. 106-107); os processos de formação da gíria portuguesa, segundo Pinto (10, p . 105-136); os recursos lingüísticos de especialização semântica em subculturas, segundo Mehrotra (9, p. 10-15); e as características gerais do argot castelhano, segundo León (13, p.16-18). A existência de procedimentos comuns à gíria brasileira e aos usados na formação do argot francês, português, norte-americano e castelhano será testada no corpus organizado a partir da obra ficcional de João Antonio ( 1 , 2, 3 e 4) com o objetivo de se chegar à caracterização desse tipo de linguagem.
* Este artigo constitui um dos itens, por ora reformulado, da Tese de Doutoramento " Gíria:vulgarização de um signo de grupo?", apresentada ao Depto. de Lingüística da F. C. L. de Assis - UNESP - 19800 - Assis SP. ** Depto. de Ciências Humanas da FAAC - Unesp - Bauru - SP.

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A acepção dos termos de gíria será atualizada pelo contexto e pela consulta aos dicionários constantes das referências bibliográficas (14, 15, 16 e 17). 2. P R O C E S S O S D E F O R M A Ç Ã O D A G Í R I AB R A S I L E I R A A partir de estudos j á realizados em outras comunidades lingüísticas — conforme alusão efetuada no item 1 — , os processos de formação da gfria brasileira serão observados nos níveis fonético, morfossintático, léxico e semântico. 2 . 1 . Nível fonético

O corpus ilustra casos de alterações fonéticas por supressão, inserção e transposição de fonemas. 2.1.1. Supressão defonemas 2.1.1.1. Aférese

Cagueta, cagüetes, e güenta são exemplos de aférese, por apresentarem supressão de fonemas iniciais. No corpus, assim aparecem: (1) " Se abrisse o bico, ouviria de Robertinho a palavra cagueta, que ¿ o que mais dói para um malandro''. ( 1 , 156, L 2) (2) " / ... / arregos bem arrumados com cagüetes, trampolinagens, armações de jogoque lhes dariam um tufo de dinheiro; I . .. I . " ( 1 , 112, L 2) (3) Güenta aí, meu compadre, que a gente vai comer uma galinha mais logo, /... /." (2, 26, 2) Esses casos de aférese apresentam: cagueta por alcagüeta ( = delator); cagúete por alcagüete ( = delator); güenta por agüenta ( = suporta); E preciso mencionar que o corpus também traz as formas alcagüeta (4, 146, L 10) ( = 'delator') e alcagüetagem (4, 147, 2) ( = 'ato dedenunciar alguém'), as quais não sofreram alterações aferéticas. 2.1.1.2. Apócope

Mala, vagal, vagou, justa, e japa são casos de apócope, uma vez que ocorreu a supressão de fonemas finais. Eis os termos contextualizados: (4) " Sabia dormir com percevejo por perto e foi ali que aprendi a conhecer os tipos de malas." (4, 140, L 1)
Alfa, São Paulo, v. 35, p. 19-53, 1991.

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(5) " Baixou os...
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