Qual dos dois

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Qual dos dois
 
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Texto Fonte:
Histórias Românticas, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Edições W. M. Jackson, 1938.
 
Publicado originalmente em Jornal das Famílias, agosto de 1872.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 CAPÍTULO PRIMEIRO
 
A Rua do Ouvidor é a gazeta viva do Rio de Janeiro. Ali se fazem planos políticos e candidaturas eleitorais; ali correm as notícias; ali se discutem as grandes e as pequenas coisas: o artigo de fundo dá o braço à mofina, o anúncio vive em santa paz com o folhetim.
 
Não é, pois, de admirar que ali comece este romance, que é ao mesmo tempo oromance do Dr. Daniel E..., rapaz de vinte e oito anos, formado aos vinte e dois, e regressado há pouco da Europa. Daniel é formado em direito, mas até a idade em que o vemos aparecer não pleiteou um só processo, e, a julgar pelo gênero de vida que leva, não promete ser coisa que preste na ordem judicial. E, no entanto, não lhe falta talento, nem amigos, nem protetores, três elementos capazes delevantar um homem quando ele não tem má estrela. Mas apesar de todas essas vantagens, Daniel não tinha nem gosto nem profissão de advogado, e estava mais longe dela do que o pólo ártico está do pólo antártico.
 
Falemos verdade: o grande obstáculo que havia em Daniel, não só para a vida forense como para qualquer outra vida ativa, era a preguiça, o poderoso móvel do espírito humanodescoberto por La Rochefoucault, isso que Madame de Schönberg dizia ser — “un sentiment si cachê et si véritable”. A preguiça quebrava-lhe os arrojos, como lhe arrancava as paixões; e como felizmente ele possuía bens de fortuna, podia afoitamente dispensar-se de tentar qualquer carreira trabalhosa, ou que simplesmente lhe exigisse atenção.
 
Indiferente ao movimento público, a quedade um ministério valia para ele tanto como a extinção de um charuto. Nunca lera um discurso parlamentar. Conhecia a Constituição por tê-la lido na academia. Não votava nunca, nem tinha disposição de fazê-lo.
 
Nenhuma grande ordem de idéias chamava a sua atenção; tinha em pouco as fadigas do gênero humano por bens que lhe pareciam nulos, sem que desse a razão por quê, operação quelhe exigiria certa atividade, que não tinha.
 
— A vida é um ônibus, dizia ele; cada um paga a sua passagem e desce do veículo na primeira cova que encontra. Ora, num ônibus, anda-se quieto; deixem-me andar quieto.
 
Vê-se que o sentimento da preguiça aliava-se um pouco a certa filosofia apática, resultando deste consórcio a mais perfeita tranqüilidade de ânimo quejamais entrou num peito daquela idade.
 
A sua vida era, pois, serena, plana e uniforme. Nem tinha as grandes tempestades que agitam o mar, nem os aspectos sombrios de um terreno cercado de montanhas. Era a quietação do lago e a regularidade da planície. Pode ser que houvesse dentro dele o germe das grandes paixões, mas faltava fecundá-lo.
 
Vivia Daniel na Rua doOuvidor; os seus horizontes não passavam da casa do Bernardo ou da livraria Garnier. Fazia algumas excursões a Andaraí, a Botafogo ou à Tijuca, do mesmo modo que se faz a viagem a Buenos Aires ou a Lisboa; mas o seu país natal era a Rua do Ouvidor. Se a Rua do Ouvidor não existisse, dizia ele, era preciso inventá-la. Depois da Rua do Ouvidor, só uma coisa lhe merecia cultos: a alcova em quedormia.
 
Era elegante por indiferença; vestia o que lhe davam os alfaiates. Ia ao teatro por matar o tempo; entrava sem curiosidade e saía sem comoções.
 
Não havia memória de que se houvesse zangado alguma vez, nem com os escravos, nem com os amigos, que ele aliás confundia até ao ponto de dizer que via um amigo em cada escravo e um escravo em cada amigo.
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