A construção do espaço ou um espaço em construção. reflexões sobre a “ construção” medieval

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A construção do espaço ou um espaço em construção. Reflexões sobre a “ construção” medieval

António Maria Balcão Vicente

A explosão do monaquismo, um dos últimos legados de Roma, de uma Roma já em decadência, é certo, mas nem por isso menos importante, anda associada à crescente ruralização de um mundo cada vez mais compartimentado e que ia cristalizando em torno do desespero face àdestruição da «antiga ordem», sem que outra se desenhasse. De facto, o mosteiro acabaria por revelar-se inúmeras vezes como a única estrutura religiosa com solidez suficiente para inspirar confiança nas gentes de vastas regiões onde as cidades, no dizer de George Duby, se encontravam mortas ou moribundas1. É certo que o mundo urbano haveria de recobrar forças, mais cedo numas regiões que noutras, mas coma energia suficiente para que o século XI se caracterizasse como o século das catedrais, pujante da força que brota dos burgos e que tal como o anterior necessita de um «cenário» onde ritualize as funções que o imaginário colectivo lhe atribui e, simultaneamente, seja reflexo do modelo social que o originou. Senhores, irmãos de príncipes, duques e condes, os bispos construíam as suas catedrais eorganizavam o respectivo espaço em obediência à manifestação da glória de Deus de que eles se consideravam os lídimos representantes. O espaço catedralício tornava-se, desta forma, um hino ao triunfo de um cristianismo tão triunfante, como as linhagens que representavam e que se reviam no exemplo do que os reis como Carlos Magno, Luís o Piedoso, ou Carlos o Calvo haviam assumido. Tratava-se, assim,de um espaço de reis e de uma construção de e para reis. Mas não é deste espaço nem desta construção que nos propomos falar, apesar de com o monástico estabelecer uma articulação em parte associada ao proliferar de novos mosteiros desde o início do século XI. Estes mosteiros, quase sempre fundados sob a protecção de uma linhagem, funcionavam como o suporte e garante do enraizamento do seu poder.Nele se reflectia

- Investigador do Instituto de Estudos Regionais e do Municipalismo “Alexandre Herculano” Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
1

- S. Bernardo e a arte cisterciense, p. 35.

2 a glória da família, aí onde os túmulos dos antepassados estabeleciam a ligação entre o mundo dos vivos e o dos que já haviam partido, mas era necessário manter aplacados, justificando afunção litúrgica dos monges e garantindo o elo de pertença relativamente ao espaço onde a linhagem se estabelecera e controlava. O espaço ocupado por estes mosteiros era ainda concebido em função de uma ideologia perspectivada no passado, no tempo em que as catedrais e o poder episcopal haviam feito retroceder o monaquismo para o interior do silêncio, onde a principal função era chorar os pecadosdo mundo enquanto se aguardava a vinda do Juízo Final. Os esplendores do Ano Mil são ainda o reflexo do triunfalismo herdado do período carolíngio e que as turbas populares inflamadas pela palavra herética de um qualquer visionário do messianismo apocalíptico, esperavam reviver na pessoa de cada novo «Carolus» que as conduziria á Jerusalém Celeste. O espaço monástico mantém a função iniciática dereflectir uma determinada visão do mundo, um sistema de valores que tudo organiza e modela. A imagem projectada pelo cenário implantado no espaço monástico é a réplica do modelo social que o origina. É certo que a Regra de S. Bento preconiza formalmente a pobreza, a castidade e o trabalho manual como elementos fundamentais para a concretização do ideal monástico. No entanto, a moral de renúnciadefinida por Bento de Núrsia e Gregório Magno originou um mosteiro de estruturas solidamente alicerçadas no poder feudal que, em vão, Bento de Aniane tenta alterar no século IX. Tal como na catedral ou na colegiada, a vida do mosteiro estrutura-se em torno do claustro, essa construção onde assenta o verdadeiro centro de toda a actividade monástica, permitindo ao monge a concretização da dupla...
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