A difícil articulação entre fé e política

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  • Publicado : 26 de abril de 2011
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NÃO CONFUNDA CAMARÃO COM BICHO PITU: A DIFÍCIL ARTICULAÇÃO ENTRE FÉ E POLÍTICA

1. Encruzilhadas ideológicas

Num texto publicado no Boletim do PaPo, mas igualmente utilizado, com pequenas modificações, na formação de grupos de jovens católicos de classe média do início da década de 1980, Pe. Paco procurava lançar as bases de uma “Espiritualidade em concordância com o Apostolado Social”, queele chamava de “Espiritualidade de Libertação” ou “Espiritualidade em tempos de Revolução”. Essa Espiritualidade não pairava nas nuvens; muito pelo contrário, trazia um projeto político bem terreal:

Desejamos um projeto radical: uma nova forma de organizar a sociedade sob outras raízes, a partir do trabalho de todos com a participação de todos nos meios e bens de produção e nos meios de poder,a partir de uma nova mentalidade e atitude interna; queremos mudança radical de estruturas, ideologias e corações: a isto chamamos Revolução. Deus exige esta coragem dos cristãos.

Mas ele advertia na segunda parte do texto acerca dos falsos projetos revolucionários: “Quantas vezes somos mais ‘personagens’ e não ‘pessoas’? [...] Por que muitos revolucionários com os anos viram burgueses: porquea sua atitude revolucionária é de imitação, é uma personagem, é uma sugestão realizada pelo ambiente” .

Um pouco antes, em 1978, o jesuíta basco-panamenho Xabier Gorostiaga, futuro membro do mundano governo sandinista, fez uma viagem de três semanas pelo Brasil. Após percorrer três estados do País (Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo) e se consultar com mais de dez bispos da CNBB,diversos dirigentes e militantes cristãos (da ACO e da JOC, sobretudo) e algumas poucas entidades de pesquisa (como o Cebrap), seu olhar estrangeiro desnudou uma formação política precária e um arraigado conservadorismo, mesmo nos setores mais progressistas:

Apesar da força da Igreja nesta periferia urbana [no caso, carioca e paulista], deu-me a impressão de que havia uma carência de formaçãopolítica nestes militantes. [...] Nas reuniões com os operários pude comprovar que a maioria deles e dos sacerdotes que trabalham tem sofrido prisão e tortura. O compromisso destes cristãos, porém, está bloqueado pelo “tabu” ideológico contra os políticos partidários. Existe, todavia, um forte anticomunismo em amplos setores destes militantes cristãos.

Esse anticomunismo não deve causar surpresa. Inclusive nos jesuítas preocupados com a questão social. Páginas atrás, soubemos que o Pe. Ávila fundou a ADCE e criou o Solidarismo, ambos assumidamente anticomunistas. A Associação, por exemplo, congregava empresários cristãos que temiam o perigo da esquerdização do regime janguista. Alguns dos “convidados ilustres” nas suas reuniões foram os ministros Mário Andreazza e Jarbas Passarinho,este último dono de um currículo nada desprezível no primeiro escalão do regime ditatorial: governador nomeado do Pará por Castelo Branco, ministro do Trabalho e da Previdência Social com Costa e Silva, ministro da Educação e Cultura com Médici e novamente da Previdência e Assistência Social com Figueiredo. Assistente Eclesiástico da ADCE por muitos anos, Ávila a viu definhar depois do golpe de 1964:“Os empresários se foram dispersando: não havia mais perigo de subversão e não havia mais tanta importância em participar das reuniões. [...] Aos poucos, fui me convencendo de que o grande empresariado quer acalmar a sua consciência e quer acima de tudo defender seus interesses, na sua maioria” .

A aproximação de Ávila com os círculos de poder atravessaria o período repressivo. Depois de terrecusado o cargo de ministro da Educação de Castelo Branco, ele foi convidado para suplente do senador (e coronel reformado do Exército) Passarinho, pelo Partido Democrático Social (PDS), em 1982, e novamente ministro da Educação, em 1989, já no período democrático, no final da gestão de José Sarney (um legítimo resquício do regime ditatorial...) . Mas vem de muito mais longe o anticomunismo no...
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