A dimensão trágica de 68

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Este texto resulta de palestra e subseqüente debate realizados pela autora, durante o evento "Trinta anos de uma história malcontada", promovido pela Fundação Getúlio Vargas, no período de 22/03 a 04/04/93
A dimensão trágica de 68
A partir do presente, da atualidade, é possível construir
diferentes vias significativas de acesso ao passado, não
como a verdade essencial e originária dahistória, mas
como verdades que são produzidas pelo jogo claro/
escuro da memória e do esquecimento. É deste ponto de
vista que o acontecimento de 1968, que tem em si a
marca da "inatualidade" pode reconquistar hoje sua
(in)atualida de e revelar toda sua dimensão trágica

IRENE CARDOSO*

Duas questões têm se cruzado com alguma freqüência quando tratamos da História do Brasil dos últimos trintaanos, sobretudo se colocamos um marco em 68: a idéia de uma história mal contada, e o problema da cultura e identidade nacional.

A história mal contada implica também a idéia de uma ,história bem contada. Nesse registro, a história bem ou mal contada supõe um "ponto de apoio fora do tempo", uma instância moral, que julga segundo uma "objetividade apocalíptica", que pode ser o tribunal da história.Supõe a possibilidade de se chegar a uma verdade única, a verdade da história. Trata-se de um "ponto de vista supra-histórico: uma história que tem por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma, a diversidade enfim reduzida do tempo; uma história que nos permitiria nos reconhecermos em toda parte e dar a todos os deslocamentos passados a forma de reconciliação"1.

1.Foucault, M., "Nietzsche, a Genealogia e a História". Micrófísica do poder, Rio, Graal, 1984, p. 26.

O tema da identidade nacional traz os problemas envolvidos na questão da identidade: a identidade como unidade, como completude, como não divisão, como "forma móvel a tudo o que é externo, acidental ou sucessivo", a identidade preservada de uma origem. Traz ainda a idéia da necessidade de se assegurarde uma identidade, como condição de existência individual, social ou cultural, mesmo que seja pelo mecanismo da nostalgia de uma identidade perdida: um dia houve, um dia haverá; um antes, um depois de.

Ambas as formulações permanecem no registro de uma verdade essencial a que a história permitiria atingir. Conduzem a trabalhar com as oposições verdade-erro, verdade-falsidade, no registro moral,portanto da história.

Gostaria de propor um outro modo de se pensar a história, uma história para além de bem e mal contada. Para isso vou me valer da imagem grega arcaica da verdade, não sem antes apontar para o risco do anacronismo, que envolve a consideração de um outro tempo no interior do tempo dos historiadores. Essa postura significa a colocação de questões aos gregos, que não sãogregas, porque eles não a recortaram como tais, mas são questões da atualidade, de um problema atual, de uma situação atual2.

2. Loraux, N., "Elogio do anacronismo". Tempo e História, São Paulo, Companhia das Letras, 1992. Foucault, M.,"O que é iluminismo?", Dossier, Rio, Taurus, 1984; Ewald, F., "Michel Foucault", Dossier, Rio, Taurus, 1984; Foucault, M., História de Sexualidade II - 0 uso dosprazeres, Rio, Graal, 1984.

Diferentemente das noções da antiguidade clássica e da modernidade, os gregos arcaicos (na Teogonia de Hesíodo) tiveram a experiência da verdade como alétheia, que indica o não esquecimento.

As musas, filhas da memória, constituem-se em uma força de esquecimento e memória, com o poder da ausência, ou da presença, de velamento ou desvelamento. A linguagem que as musascantam implica uma força de nomear, o poder de fazer à presença o não presente, coisas passadas e futuras. O passado e o futuro pertencem ao reino noturno do esquecimento até que a memória de lá os recolha e faça-os presentes pelas vozes das musas. A força presentificante da nomeação é que mantém a coisa nomeada no reino da memória - o nomeado pertence ao reino do esquecimento, do não ser3....
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