A golpes de estilo

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A golpes de estilo

Tomaz Tadeu da Silva

Que se sustente, meu deus... Uma coisinha de nada, mas com estilo.
Francis Ponge

Eu ia começar falando mal do estilo dominante na escrita educacional. Pra depois falar do que poderia se chamar de um outro estilo de escrita educacional. Mas seria um mal começo. Porque eu nem saberia dizer o que é isso, a escrita educacional. Há tantas. E, depois,nem estou aqui pra propor nada. Fazer propostas não é justamente o que caracteriza um certo estilo na escrita educacional? Justamente o mais deplorável. Não, melhor deixar isso de lado.
Nova tentativa. Começar de novo. O que significa formular um outro problema. Tudo começa com um problema. Isso é certo. Tudo? Certo? Talvez não. Talvez é sempre melhor. Sempre? De qualquer forma, não faz malnenhum recomeçar com um novo problema. Que se poderia formular assim. Por que, aparentemente, o estilo não tem sido um problema na escrita educacional? Por que as formas de expressão não estão, aí, quase nunca, em questão? E para isso vou recorrer a Gilles Deleuze que, sozinho ou junto com Félix Guattari, muito escreveu sobre estilo. Com estilo, bien entendu.
Ao definir o estilo como o processo peloqual se submete a língua a um processo de variação contínua, Deleuze radicaliza a noção de “tropos” entendida como desvio da semântica, da sintaxe e da lógica “normais” da língua, sem se afastar totalmente, entretanto, da concepção tradicional de estilo. Por outro lado, a noção de estilo, por estar associada à de variação contínua e, portanto, à de multiplicidade, afasta-se totalmente de qualquerassociação com a noção tradicional de estética, relacionada à obtenção do belo para efeitos de contemplação e fruição pessoal. O estilo não tem nada a ver, aqui, com beletrismo. Escrever com estilo não é a mesma coisa que escrever “bonitinho”. O estilo, na concepção deleuziana, está mais para desagradar que para agradar. Escreve-se, e escreve-se com estilo, para devir.
O estilo está, emDeleuze, muito mais ligado à política do que à estética. Ele serve para submeter a língua a um processo de variação contínua com vistas a transformar quem escreve e quem lê. É a noção central de multiplicidade (expressa aqui por meio de um de seus aspectos, o de “variação contínua”) que liga, inseparavelmente, estilo, pensamento, política e... vida. É por isso que o estilo não é uma prerrogativa dosque escrevem literatura, embora Deleuze admire aqueles que, na literatura, escrevam com um estilo que faça as palavras ressoarem com as multiplicidades, que faça com que a escrita seja uma multiplicidade. A filosofia, concebida simplesmente como pensar, como criação de conceitos, tem necessariamente um estilo. É porque o “estilo em filosofia acompanha o movimento dos conceitos” que “os grandesfilósofos são também grandes estilistas” (Deleuze, 1992, p. 175; cf. p. 203).
Como isso se aplica a Deleuze, como filósofo, como estilista? Podemos começar, talvez, por distinguir entre, de um lado, aquilo que Deleuze disse sobre estilo e, de outro, o estilo que o próprio Deleuze praticou. Sobre a primeira questão, vários dos diversos livros de Deleuze estendem-se longamente sobre a noção deestilo. Proust e os signos tem um capítulo inteiro, o 9, sobre estilo. A dobra é, em grande parte, um livro sobre um estilo particular, o barroco. Em Mil platôs, além de referências esparsas, há determinados platôs que desenvolvem longamente a noção de estilo. É o que ocorre, por exemplo, no platô 4, no platô 10 e no platô 11.
Vejamos, pois, com o auxílio sobretudo desses platôs, mas tambémde referências retiradas de outros livros, o que constitui um estilo para Deleuze, para que serve o estilo na escrita, e quais são as conexões entre estilo, de um lado, e pensamento, política e vida, de outro. De uma maneira bem geral, pode-se dizer que o estilo, para Deleuze, consiste em submeter constantemente a língua com que se escreve a uma tensão tal, a uma variação contínua tal, que ela...
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