A propósito dos paradigmas de orientações teórico-metodológicas na geografia contemporânea

A propósito dos paradigmas de orientações teórico-metodológicas na Geografia contemporânea

Eliseu Savério Sposito
Prof. Dr. do Departamento de Geografia, Faculdade de Ciências e Tecnologia Universidade Estadual Paulista (UNESP) Correio Eletrônico: sposito@prudenet.com.br

Resumo
Este texto tem como objetivo esboçar uma proposta de leitura metodológica dos principais paradigmas queorientaram a produção do pensamento geográfico no século XX. A análise da temática parte dos diferentes níveis de conhecimento (teórico e epistemológico) e de seus pressupostos mais complexos (gnosiológicos e ontológicos), considerando algumas dimensões da complexidade científica atual (humanismo, racionalismo, progressismo, urbanicismo e individualismo), para chegar a alguns desdobramentosparadigmáticos na Geografia como, por exemplo, a ênfase no método que ocorre nos anos 80 ultrapassando a preocupação com o objeto, e a consolidação de temas (globalização, modernidade, turismo) ou de tendências teóricas (Geografia Humanista) que se tornam verdadeiros paradigmas.

Palavras-chave
Pensamento geográfico – paradigmas da Geografia – teoria do conhecimento – método – teoria.

Terra Livre

SãoPaulo

n. 16

p. 99-112

1o semestre/2001 99

ELISEU SAVÉRIO SPOSITO

Introdução
Os geógrafos têm se pautado, para realizar suas investigações, sejam elas de busca empírica da informação geográfica, sejam de reflexão epistemológica do conhecimento elaborado, em vários paradigmas para elaborar suas idéias. Considerando-se que um paradigma se define, em termos gerais, pelo conjunto deidéias, teorias e doutrinas construídos com a intermediação do método e que caracterizam uma tendência científica, pode-se afirmar que, historicamente, nos últimos cinqüenta anos, houve dois grandes grupos de paradigmas (que discutiremos mais adiante) que foram fundamentais na orientação metodológica da produção do conhecimento geográfico. É esta temática que nos propomos a abordar, organizandoalgumas características para o debate que se apresenta. Não é propósito, neste texto, esgotar as possibilidades de confronto das idéias, mas apenas levantar informações para contribuir com a discussão na necessidade de se colocar frente aos principais elementos que norteiam a construção do pensamento geográfico. Partimos, inicialmente, do pressuposto de que uma teoria (o mesmo pode ocorrer com umconceito, por exemplo) pode ter três encaminhamentos, desde que esteja claramente expressa para que se possa realizar a leitura da realidade. O primeiro deles, aquele que é mais fácil de ser identificado, é a teoria se consolidar e perdurar norteando o pensamento científico por longo tempo. Como exemplo para esse encaminhamento podemos citar, em Geografia, a importância que ganhou a teoria dosgeossistemas, a consistência das redes para a interpretação dos fluxos de informação e de mercadoria, a teoria da renda fundiária urbana, entre muitas outras teorias que poderiam ser citadas. Outro encaminhamento que uma teoria pode ter é a sua superação por outras teorias e/ou paradigmas, mesmo antes que ela se consolide completamente. Embora seja difícil de exemplificar este encaminhamento,podemos lembrar das inúmeras possibilidades abertas por teses acadêmicas que nem se tornam conhecidas porque não abrem possibilidades concretas de interpretação da realidade. Finalmente, a terceira opção é a de que a teoria pode ser negligenciada ou esquecida, não se tornando referência universal para estudos científicos, apesar de sua importância na configuração do pensamento. Como exemplo importantedesse encaminhamento, podemos lembrar o que ocorreu com a teoria dos dois circuitos da economia urbana, elaborada na década de 1970 por Milton Santos, cujo papel na interpretação das cidades dos países subdesenvolvidos não foi devidamente testado. Esses exemplos levam a afirmar que a relação entre as teorias e os paradigmas é fundamental para a compreensão da maneira como estamos propondo a...
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