Categorização do gênero gramatical

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A categorização do gênero gramatical: uma leitura crítica para o ensino de português [1]

José da Luz Costa
UFRN

Introdução

Em princípio, este estudo situa-se no contexto sociocultural em que a linguagem é vista como uma atividade intersubjetiva, que favorece e promove a interação comunicativa entre os usuários. Assim sendo, a análise do gênero gramatical dos substantivos emportuguês fundamenta-se aqui nos pressupostos teóricos formulados pela lingüística funcional, de inspiração givoniana. Esse paradigma científico, basicamente, estabelece uma ruptura teórico-metodológica com os modelos tradicionais de pesquisa lingüística. Com efeito, o modelo de análise proposto por Givón e outros funcionalistas norte-americanos configura uma reação à ausência do componente pragmático nosmodelos estrutural e gerativista[2]. Tornaram-se evidentes as limitações conceptuais dessas propostas lingüísticas, visto que focalizam a descrição do sistema em si mesmo, divorciando forma de função, expressão de conteúdo, contexto (discursivo) de situação (social).
Vale reiterar, portanto, que o funcionalismo, em função de uma gramática de base semântico-pragmática, concebe a língua como umsistema dinâmico, emergente, plástico, remodelado continuamente pelas forças motivadoras – internas e externas – concernentes ao processo interativo da comunicação verbal.
Fundamentalmente, a observação sobre o comportamento funcional da categoria de gênero prioriza aqui sua manifestação em enunciados empíricos, pois que estes refletem genuinamente a atividade discursiva de indivíduos reais.Nesse sentido, a representatividade do corpus torna-se preponderante no contexto da análise. Assim, os casos ilustrativos e pertinentes à formalização do gênero nominal são levantados em textos da imprensa escrita nacional – revistas e jornais –, cujas informações mostram-se autenticamente contemporizadas às demandas comunicativas. Haja vista que as ocorrências evidenciadas no âmbito daescrita comumente já foram antes detectadas como manifestações da fala vernacular. Notadamente, reconhecemos também a necessidade de trabalhos que abordem o funcionamento do gênero na língua falada, o que exigirá certamente novos projetos investigativos.
A escolha por dados da língua escrita justifica-se, em particular, pela tendência de ser esta uma modalidade lingüística [+estável][+monitorada] [+urbana] [+culta]. Este conjunto de traços, típicos da escrita, atesta a funcionalidade da linguagem jornalística como um dos modelos de língua padrão/norma-padrão, atualmente objeto de uso prestigiado por falantes [+cultos] e alvo da prática pedagógica vigente no país.
Mesmo que a língua escrita apresente um caráter de menor instabilidade formal do que a língua falada, ainda assim asevidências em torno da codificação morfossintática de gênero (masculino/feminino) revelam formas gramaticais alternativas, distintas dos padrões canônicos postulados pela gramática tradicional (gramáticas normativas[3]) – doravante GT.
Podemos exemplificar essas manifestações mediante os enunciados seguintes extraídos de revistas[4] com circulação nacional:


(1) Rica e lipoaspirada, abispa Sonia atrai fiéis com sermão que mistura Deus, casamento e cosméticos (VE, 21/2/2001, p.78).



(2) “Só espero que o ministro da Defesa, Rudolf Scharping, não coloque as soldadas em tanques cor-de-rosa”, ironizou Rainer Bruedele, do partido oposicionista Democratas Livres (IE, 10/1/2001, p. 85).

Nestes casos temos dois substantivos aplicados particularmente à classe dos homens,entretanto, por necessidade comunicativa de adaptarem-se as informações às referências da realidade sociocultural, tais vocábulos são empregados atualmente para designar também as mulheres que assumem os respectivos cargos.
Tradicionalmente, gramáticas e dicionários classificam esses nomes como masculinos. Todavia, com o ingresso das mulheres nas funções religiosas e militares, tornou-se...
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