Abjeção em textos de andré sant’anna

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Viso · Cadernos de estética aplicada
Revista eletrônica de estética
ISSN 1981-4062 Nº 6, jan-jun/2009

http://www.revistaviso.com.br/

Abjeção em textos de André Sant’Anna
Leandro Salgueirinho

Viso · Cadernos de estética aplicada n. 6 jan-jun/2009

RESUMO
Abjeção em textos de André Sant’Anna
Trata-se de uma leitura de textos do escritor André Sant’Anna a partir da problematizaçãoque, em The Return of the Real (1986), o crítico de arte norteamericano Hal Foster faz da noção de abjeto e da dita abject art. Palavras-chave: literatura – psicanálise – André Sant’Anna - Hal Foster - abjeto

ABSTRACT
Abjection in the Works of André Sant’Anna
A reading of works by Brazilian writer André Sant’Anna based on the thoughts developed around the notion of abject, and the so-calledabject art, by North American art critic Hal Foster in his book The Return of the Real, 1986. Keywords: literature - psychoanalysis - André Sant’Anna - Hal Foster - abject
Abjeção em textos de André Sant’Anna · Leandro Salgueirinho

Viso · Cadernos de estética aplicada n. 6 jan-jun/2009

Que cada homem grite. Tristan Tzara

Em certo momento de seu livro The return of the real (1996), HalFoster fala sobre o “artifício da abjeção”, que, no seu entender, construiria um elo entre muitas produções artísticas contemporâneas.1 Obviamente, ele recorre a Julia Kristeva, a primeira talvez a dedicar todo um livro (Powers of Horror, 1982) ao tema da abjeção. Kristeva, em uma de suas inúmeras definições do termo, dirá que “the abject is what I must get rid of in order to be an I” (o abjeto éaquilo de que preciso me livrar no intuito de ser um Eu). 2 O abjeto seria algo fantasmático, não somente estranho ao sujeito, mas também íntimo dele. De fato, é a superproximidade do abjeto com o sujeito que produz o pânico neste, fazendo-o perder a noção espacial de dentro e fora, bem como, em termos psicanalíticos, “a noção da passagem entre o corpo materno (domínio do abjeto) e a lei paterna”. 3Enfim, uma condição na qual a distinção entre sujeito e objeto sucumbe.

Recorrendo a Judith Butler, no entanto, Foster sugere que o abjeto tenha um papel crucial na construção de subjetividades racistas e/ou homofóbicas.4 Mas o faz, afinal, para salientar as ambiguidades da própria noção de abjeto, seja no seu viés psicanalítico ou no seu viés cultural, mostrando que tanto a possível validadepolítico-cultural como a fraqueza desta noção residiriam nesta mesma ambiguidade.

Afinal o abjeto pode ser representado? Se ele se opõe à cultura, ele pode ser exposto na cultura? Se ele é inconsciente, pode ele se tornar consciente e permanecer abjeto? Em outras palavras, pode haver uma abjeção conscienciosa, ou isto é tudo o que pode haver? A arte abjeta pode alguma vez escapar a um usoinstrumental, de fato moralista, do abjeto? (Num certo sentido, essa é a outra parte da questão: pode haver uma evocação do obsceno que não seja pornográfica?)5

Se tomarmos como exemplo o texto O importado vermelho de Noé, de André Sant’Anna (André, doravante), veremos que é quase didática a sua aplicabilidade àquela noção ‘cultural’ do abjeto. Para o seu narrador em primeira pessoa, um administradorque dirige seu carro importado pela Marginal Tietê, em São Paulo, abjeto são: os carros nacionais; os pedestres; a própria Marginal Tietê; o engarrafamento; as falhas no sistema administrativo de São Paulo; o seu “prefeito preto”; “os pretos e os seus excrementos”; “o subproduto indesejável da insignificante indústria nacional”. Em contrapartida, o seu ‘eu’ se autodefinirá quando for capaz de sefundir com tudo o que for sinônimo de: dinheiro; beleza; Nova Iorque (“terra prometida”); mulheres; celebridades (Naomi Campbell, “preta mas muito gostosa”; o “corpo nu de Julia Roberts”); poder aquisitivo; brancos; Paulo (Maluf?), que é provavelmente o seu único amigo e certamente o seu espelho, o seu ‘par’ na espécie; American Airlines; tecnologia (de última geração); carro importado;...
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