Discrepância entre classes sociais em “feliz ano novo”

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DISCREPÂNCIA ENTRE CLASSES SOCIAIS EM “FELIZ ANO NOVO”
Elisa GUTIERREZ (G - FAFIPAR)

O conto “Feliz Ano Novo” foi publicado em 1975 no livro de Rubem Fonseca que leva o mesmo título do conto, tendo sua reedição em 1998. Considerado um dos principais livros do autor, foi proibido pela Censura no ano seguinte por conter “matéria contrária à moral e aos bons costumes”. Além do conto-título,neste volume também estão presentes mais quinze histórias. Feliz Ano Novo foi a quinta obra do autor que em 1963 passou a dedicar-se integralmente à literatura.
O texto narra a fábula de um assalto que ocorre na noite de réveillon do Rio de Janeiro. Mais especificamente, a fábula de “Feliz Ano Novo” é a seguinte: o narrador e seu amigo Pereba estão em casa sem comida, sem água, sem nada.Zequinha, parceiro de assalto do narrador, também está em péssima situação pois os policiais estavam mais rigorosos. O narrador cita estar com as armas de Lambreta - assaltante profissional - e resolve pegá-las na casa de Dona Candinha, onde estavam guardadas. Zequinha então sugere um assalto em uma residência nobre da cidade. Sem opção, é o que fazem. Roubam um carro e invadem tal residência; matam,estupram e levam jóias, comidas e bebidas. De volta para casa comemoram, enfim, o feliz ano novo.
O autor monta a fábula, conforme Genette (1979), no tempo subjetivo (psicológico) que é vinculado ao tempo cronológico, porém, trata do tempo da experiência subjetiva das personagens caracterizando-se pelo tempo vivencial destas. Assim sendo, o narrador não se remete ao passado para contar ofato que resumi-se em suas ações e em seus diálogos.
A única anacronia encontrada no texto foi a analepse. Primeiro Pereba, que demonstrando sua superstição quando o narrador propõe comer os restos dos despachos de macumba, relata um fato passado: “Lembra do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andandode muleta.” (FONSECA, 1998: 13); depois o próprio narrador, explicando o respeito recíproco entre ele e Zequinha: “eu e Zequinha tínhamos assaltado um supermercado no Leblon, não tinha dado muita grana, mas passamos um tempão em São Paulo na boca do lixo, bebendo e comendo as mulheres. A gente se respeitava.” (FONSECA, 1998: 14).
O discurso narrativo se vê alongado com o uso da digressão. Issoocorre muito durante o conto, pois narrando o texto em primeira pessoa, o narrador mostra seus próprios pensamentos em nível psicológico, comportamental e social das personagens que estão ao seu redor e de sua própria pessoa: “Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bundasuja no papo.” (FONSECA, 1998: 19).
A narrativa singulativa revela igualdade na freqüência com que os acontecimentos da diegese são mostrados no texto em relação ao número de vezes em que esses acontecimentos são mencionados no discurso narrativo, dando assim, o tempo dos fatos ocorridos.
O tempo psicológico corresponde à organização do tempo interno das personagens, constituindo-se apartir do conjunto de referências que responde pela subjetividade das mesmas, incluindo-se aí o narrador. Sendo assim, e também pelo fato da existência da necessidade de tudo explicar ao leitor, fato que muito ocorre ao longo do conto, podemos identificar na narrativa três recursos de subjetivação intimamente ligados ao tempo psicológico:
- o monólogo interior, quando o narrador dialogaconsigo mesmo sem, no entanto, perder o controle de sua consciência: “Acho que ele também estava com fome” (FONSECA, 1998: 16), o narrador ao pensar que Zequinha fingia quando puxava o ar como quem tem algo entre os dentes;
- a análise mental, dando vazão aos seus pensamentos sem perder de vista a sua posição numa dada situação dramática, mas articulando algo como uma dupla perspectiva. “Eu...
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