Luto

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Gustav Klimt, Árvore da Vida

Processo de Luto
o inevitável percurso face a inevitabilidade da morte
Rita Melo (2004)

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O Processo de Luto

- Esta noite... Vê lá se percebes... Não venhas comigo. - Vou! Vou! Não te quero abandonar! - Mas há-de parecer que me dói muito... Há-de parecer que eu estou a morrer. Tem de ser assim. Não venhas ver uma coisa dessas que não vale a pena. - Vou!Vou! Não te quero abandonar! (...) - Fizeste mal. Vais ter pena. Vai parecer que eu estou morto e não é verdade... Eu continuava calado. - Percebes?... É que é muito longe e eu não posso levar este corpo... É pesado de mais...
O Principezinho, Saint-Exupéry

A vida e a morte andam, quer queiramos quer não, de mãos dadas e marcam ambas presença no nosso quotidiano, em que a perenidade da vidarecorda-nos a inevitabilidade da morte. Vicent (1991; pág. 343) explícita bem este facto quando diz que "por toda a parte a morte agarra o que está vivo". À medida que caminhamos pelas várias etapas do ciclo de vida, aproximamo-nos do nosso incontornável destino que é a morte, ficando esta última cada vez mais presente e ocupando um maior espaço no nosso pensamento. Porém, vários acontecimentospodem antecipar o nosso confronto com a morte, sendo dos mais penosos, sem dúvida, a perda de alguém que nos é importante. É indescritível o tremendo sofrimento que advém da perda de alguém que nos é querido, pois jamais alguma palavra conseguiria abarcar uma dor que aparenta ser incomensurável. Sanders (1999; pág. 3) relata-a da seguinte forma: "A dor de uma perda é tão impossivelmente dolorosa, tãosemelhante ao pânico, que têm que ser inventadas maneiras para se defender contra a investida emocional do sofrimento. Existe um medo de que se uma pessoa alguma vez se entregar totalmente à dor, ela será devastada - como que por um maremoto enorme - para nunca mais emergir para estados emocionais comuns outra vez". O tempo acaba por ser o maior aliado para ultrapassar a inolvidável perda,permitindo uma recuperação lenta e gradual. Porém, o sobrevivente tem também um papel activo no processo de luto, tendo que efectuar determinadas tarefas de forma a "deixar ir" o ente perdido e seguir em frente com a sua vida. Quando estas tarefas não são realizadas, acaba-se por passar a ténue e imprecisa linha que separa o luto normal do luto patológico. Neste último, verifica-se que a severidade dossintomas do luto, características de uma fase inicial que se segue à perda, acaba por se prolongar por um período de tempo superior ao habitual. Para além de ser um processo inevitável, pois todas as pessoas têm que o realizar a fim de se adaptarem à perda, o luto acaba por se repercutir nos vários indivíduos que rodeiam

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o sobrevivente, mesmo aqueles que não conheciam a pessoa falecida eprincipalmente os membros familiares que passam por um mesmo processo, mas nunca de uma forma igual. Dos vários tabus que marcam a história da nossa sociedade, a sexualidade e a morte parecem ter sempre ocupado os primeiros lugares. Este último, ao contrário da sexualidade, continua a ser um tema muitas vezes non grato, pois falar da morte recorda-nos a efemeridade da nossa própria vida e todos osesforços são feitos no sentido de tentar contrariar o incontornável facto da mortalidade. A própria estrutura que a sociedade ocidental adoptou vem facilitar este afastamento directo da morte, dificultando, no entanto, a adaptação necessária à perda, para prosseguir com a vida. O facto das pessoas morrerem cada vez mais frequentemente nos hospitais, por vezes longe da presença familiar no momentoda perda, acaba por afastar a confrontação directa com a morte, como acontecia antigamente, em que as pessoas na maior parte das vezes morriam em casa. Este afastamento do momento da morte, juntamente com o menor apoio da comunidade numa sociedade cada vez mais individualista, são factores sociais que dificultam enormemente o processo de luto. Relativamente às relações familiares, o que se...
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