Espiritualidade e propaganda nos programas iconográficos dos jesuítas portugueses

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Espiritualidade e propaganda nos programas iconográficos dos Jesuítas Portugueses
Luís de Moura Sobral
Universidade Montréal - Canadá

Em 1609, no ano da beatificação de Inácio de Loyola, publicou-se em Roma uma vida figurada do fundador da Companhia baseada na biografia do P. Pedro de Ribadeneyra e composta de setenta e nove gravuras mais um frontispício, obras de Rubens, autor de algumasdas composições, e de Jean Baptiste Barbé (cerca de 1578-1649), o provável gravador de todas elas1. Primeira grande sistematização iconográfica da vida de Inácio, após as Vitae em folhas avulsas de Thomas de Leu (Paris, 1590) e de Francesco Villamena (Roma, 1600) e depois da série mais modesta (doze gravuras) de Hieronymus Wierx (Vita B. P. Ignatii de Loyola Fundatoris Societatis Iesu, Antuérpia,cerca de 1609), o livro de 1609 constitui um marco importante na arte jesuíta, vindo a servir de modelo para inúmeras representações da vida do santo em diversas partes do mundo católico. Preparada nos anos imediatamente anteriores à beatificação, é lógico que o motivo principal do frontispício da Vita Rubens-Barbé seja um altar com a efígie de Inácio no topo e ao centro, dado que a obra celebraprecisamente a subida aos altares do fundador da Companhia (Fig. 1). Inácio de Loyola encontra-se porém acompanhado de retratos de outros jesuítas, com as respectivas identificações precedidas da inicial B, o que transforma todos os retratados em

1 Vita Beati P. Ignatii Loiolae Societatis Iesu Fundatoris, Roma, 1609. Existe uma reprodução fac-similada desta obra (P. P. Rubens e J.B. Barbé, Vida deSan Ignacio de Loyola en Imágenes, com estudo preliminar de Antonio M. NAVAS GUTIÉRREZ, Granada, 1992). Para a iconografia de Santo Inácio ver Ursula KÖNIG-NORDHOFF, Ignatius von Loyola. Studien zur Entwicklung einer neuen Heiligen-Ikonographie im Rahmen einer Kanonisationskampagne um 1600, Berlim, 1982. 2 Para uma breve descrição da gravura ver Julius S. HELD, ed., Rubens and the book. Titlepages by Peter Paul Rubens, Williamstown, Massachusetts, Chapin Library, 1977, cat. no. 49, 171-172.

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Fig. 1. Jean Baptiste Barbé por desenho de Rubens, Frontispício de Vita Beati P. Ignatii Loiolae Societatis Iesu Fundatoris, Roma, 1609, gravura a buril.

Espiritualidade e propaganda nos programas iconográficos 387 beatos2. Na realidade, de todos os religiososrepresentados apenas dois, Luís Gonzaga e Estanislau Kostka, haviam sido anteriormente beatificados em 1605. Os outros, e nem todos, sê-lo-ão mais tarde, a começar por Francisco Xavier, colocado por debaixo de Inácio, com ele canonizado em 1622, mas beatificado somente em 1619. Os restantes, dos que se encontram individualmente representados, só parecem haver sido até hoje beatificados RodolfoAcquaviva (em 1893), Jacques Salès e Guillaume Saultemouche (em 1926), e Edmund Campion (em 1886, canonizado em 1970). Abraham de Georgiis tem o título de Venerável, enquanto Antonio Criminali, o primeiro mártir da Companhia, apenas o de Servo de Deus. Na parte inferior da composição, em duas tarjas colocadas lateralmente e em relevos fingidos na base do altar, aparecem grupos de mártires da Inglaterra, àesquerda (PLURES IN ANGLIA, indica a inscrição), da Índia à direita (PLURES IN INDIA). Nas bases das colunas, os mártires do Japão e da Flórida e, ao centro, os quarenta supliciados do Brasil de 1570, beatificados em 1854. Goto, Miki e Kisai, os três crucificados do Japão, foram beatificados em 1627 e canonizados em 1862. O altar dos Jesuítas está pois adornado com uma galeria de santos homens,principalmente mártires, as «rosas e os lírios» de que fala a filactéria segura por cima do frontão por dois putti sorridentes: FLORIBUS EIUS NEC ROSAE NEC LILIA DESUNT. Este resumo-programa de Flos sanctorum inaciano anuncia uma nova política iconográfica por parte da Companhia. Até então os templos da Ordem, para além evidentemente dos temas marianos e cristológicos, centrais na espiritualidade...
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